Imaturidade iniciática: a disputa de ritos como sintoma

Cada rito é uma resposta a uma pergunta diferente. Quem disputa supremacia confessa que ainda não entendeu nenhum.

Representação histórica da União das Grandes Lojas da Inglaterra, 1813

Em algum grupo de WhatsApp neste momento, um maçom está digitando que o rito que ele pratica é o mais autêntico. Provavelmente vai usar a palavra “pureza”. Provavelmente vai apresentar isso como sabedoria, não como tribalismo. Vai mencionar que seu rito remonta a uma antiguidade especial, que preserva uma transmissão que os outros perderam, que carrega um espírito que os demais — bem-intencionados, claro, mas equivocados — diluíram. Ele acredita que está defendendo uma tradição. Está, na verdade, exibindo um diagnóstico.

A tese deste texto é direta: o maçom que defende “seu” rito como superior está confessando que ainda não entendeu o que cada rito ensina. A disputa entre ritos é sintoma de imaturidade iniciática, não de convicção. Globalmente, segundo dados levantados por entidades maçônicas, o Rito de York responde por cerca de 70% dos maçons no mundo, o Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) por 12%, o Rito Moderno por 7% — e o restante se distribui entre o Rito Escocês Retificado (RER), o Adonhiramita, o Brasileiro, o Schröder e dezenas de outros. Cada um desses sistemas existe há séculos, formou gerações de maçons, atravessou crises, sobreviveu a perseguições. E, ainda assim, em qualquer cidade média do Brasil, alguém está agora explicando por que apenas o seu é “o verdadeiro”.

A maior disputa da história já foi resolvida — e não foi por vitória

Vale a pena começar lembrando que a primeira grande disputa de supremacia entre ritos maçônicos não está acontecendo agora. Ela aconteceu na Inglaterra, durou 62 anos, mobilizou as elites maçônicas dos dois lados do Atlântico — e terminou de uma maneira que devia ter encerrado para sempre o debate.

Em 1717, quatro lojas de Londres se reuniram para fundar a primeira Grande Loja, marco de início da maçonaria especulativa moderna. Em 1723, James Anderson redigiu as Constitutions daquela Grande Loja — texto que estabeleceu a estrutura institucional, os encargos morais e o esqueleto ritualístico que viriam a ser referência mundial. Tudo parecia consolidado.

Em 1751, porém, seis lojas dissidentes de Londres — em sua maioria irlandesas — fundaram uma Grande Loja rival. Eles se autodenominaram Antients (“Antigos”) e classificaram os adeptos da Grande Loja de 1717 como Moderns (“Modernos”). A acusação central, articulada principalmente por Laurence Dermott no livro Ahiman Rezon (1756), era de que os Modernos haviam corrompido o ritual original ao introduzir inovações racionalistas e iluministas. Os Antigos diziam praticar a forma “mais antiga e portanto mais pura” da arte. Era a mesma frase que se ouve hoje em qualquer dissenção entre maçons.

A disputa durou 62 anos. Atravessou guerras napoleônicas. Produziu uma vasta literatura polêmica. Dividiu lojas, irmãos, jurisdições inteiras nas colônias. E, em 1813, foi resolvida — não por uma vitória, mas por uma decisão estrutural. Em dezembro daquele ano, formou-se a Lodge of Reconciliation (Loja da Reconciliação), com nove maçons de cada lado, encarregada de produzir o ritual da Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE), que nasceria do encontro das duas. O resultado, aprovado em 1816 e ainda hoje preservado pelo Emulation Lodge of Improvement (fundado em 1823), tem uma característica que costuma escapar aos defensores contemporâneos da pureza ritual: a UGLE manteve a infraestrutura administrativa dos Modernos e o ritual dos Antigos. Os dois lados foram absorvidos. Nenhum venceu. Nenhum precisou perder.

A lição estrutural é desconfortável para o tribalismo: a maior disputa de supremacia da história maçônica resolveu-se exatamente quando os dois lados pararam de tentar provar superioridade.

Cada rito é uma resposta a uma pergunta diferente

A confusão de quem disputa ritos parte de uma premissa silenciosa: a de que os ritos são versões competindo do mesmo objeto. Como se houvesse um “ritual original” e cada sistema fosse uma corrupção mais ou menos fiel desse modelo. Não é assim que funciona. Cada rito surgiu como resposta a uma pergunta histórica específica — e perguntas diferentes não competem.

O Rito Escocês Antigo e Aceito consolidou-se em 1801 com a fundação do Supremo Conselho de Charleston e ganhou sua estrutura de 33 graus a partir das chamadas Grandes Constituições de 1786, atribuídas a Frederico II da Prússia (atribuição que historiadores como Bernard Jones e os pesquisadores do portal Freemason.pt já demonstraram ser, na melhor das hipóteses, lendária). Sua pergunta era institucional: como unificar dezenas de “altos graus” escoceses que proliferavam na França e na Alemanha do século XVIII e ameaçavam fragmentar a tradição? A resposta foi um sistema universalista, filosófico, expansivo, que poderia acomodar diferentes sensibilidades sob uma única estrutura. O REAA é, nesse sentido, um rito de unificação.

O Rito Escocês Retificado, codificado por Jean-Baptiste Willermoz no Convent de Wilhelmsbad em 1782 — assembleia de maçons da Estrita Observância Templária reunida na Alemanha entre agosto e setembro daquele ano —, respondia a uma pergunta de outra ordem. Diante das fantasias templárias da Estrita Observância e das tensões entre as correntes esotéricas francesas, Willermoz e o círculo de Lyon perguntavam: como devolver à maçonaria uma fundamentação espiritual cristã coerente? A resposta foi um rito explicitamente cavaleiresco, mariano, voltado à doutrina da reintegração dos seres formulada por Martinez de Pasqually — fundador dos Élus Coëns e autor do Traité de la Réintégration des Êtres, do qual Willermoz foi discípulo direto desde a fundação de um templo Coën em Paris, em 1766. O RER não compete com o REAA: responde a uma pergunta que o REAA não fez.

O Rito Adonhiramita consolidou-se em 1781 com a publicação do Recueil Précieux de la Maçonnerie Adonhiramite, de Louis Guillemain de Saint-Victor — obra que sintetizava elementos do Heredom, do York, do Kilwinning e do Rito de Clermont em um sistema próprio de 12 graus, tendo o Cavaleiro Rosa-Cruz como nec plus ultra. A expansão para 33 graus, hoje praticada no Brasil, é desenvolvimento posterior, modelado na arquitetura do REAA. Sua pergunta original era de preservação: como manter práticas iniciáticas mais antigas, de matriz operativa e templária, dentro de uma maçonaria especulativa que tendia a racionalizá-las? O resultado é um rito metafísico, teísta, fortemente esotérico — que no Brasil ganhou presença a partir de 1815, com a fundação da Loja Comércio e Arte no Rio de Janeiro.

O que hoje se chama de Rito de York ou Emulation Working no Brasil é, em parte, fruto direto da Lodge of Reconciliation de 1813. Ele responde à pergunta institucional mais difícil já enfrentada pela maçonaria: como reconciliar duas Grandes Lojas que se acusavam mutuamente de impureza por seis décadas? A resposta foi um ritual de síntese, padronizado e republicado pelo Emulation Lodge of Improvement a partir de 1823, hoje praticado em variantes em quase todas as Grandes Lojas Unidas que mantêm tratado com a UGLE. É, literalmente, o rito da reconciliação institucional — o que torna especialmente irônico que ele seja hoje, em alguns contextos, defendido como “o original”.

O Rito Brasileiro, por sua vez, responde a uma pergunta nacional. Sua origem remonta a Pernambuco — alguns documentos apontam 1848, outros 1878, sob iniciativa do maçom José Firmo Xavier. Foi oficialmente reconhecido pelo Grande Oriente do Brasil em 1914, durante o grão-mestrado de Lauro Sodré, e teve sua reimplantação efetiva conduzida em 1968 por Álvaro Palmeira, que formatou os rituais de todos os 33 graus. Sua pergunta era de identidade: como manter os princípios universais da maçonaria sem ignorar a cultura, a história e os problemas específicos do Brasil? A resposta é um rito declaradamente evolutivo, que rejeita formalismos importados e procura tratar do “aperfeiçoamento moral, intelectual e cívico” sob lente nacional. É o segundo rito mais praticado no país.

Cinco respostas para cinco perguntas. Disputar qual delas é “a melhor” é como discutir se a chave-de-fenda é melhor que o martelo. A pergunta certa é sempre para quê — e a resposta varia com o problema.

A psicologia da disputa: imaturidade iniciática

Por que então a disputa existe? A explicação mais generosa é histórica: maçons que conhecem profundamente um único rito tendem a interpretar os outros pelas categorias daquele que conhecem, e categorias importadas falham. O REAA visto pelas lentes do Emulation parece teatral demais; o Emulation visto pelas lentes do REAA parece minimalista demais; o Adonhiramita visto pelas lentes do Brasileiro parece anacrônico; o Brasileiro visto pelas lentes do RER parece raso. Em todos os casos, o que está sendo julgado não é o rito — é a distância dele em relação a um modelo mental implícito. Quem nunca examinou esse modelo julga sem saber que está julgando.

A explicação menos generosa, e mais útil para esta análise, vem de um fenômeno reconhecível. O conceito de iniciação virtual — a iniciação que se recebeu como qualificação formal mas ainda não se realizou efetivamente em transformação interior — descreve com precisão o estado em que se encontra grande parte de quem entra em disputas tribais sobre ritos. O maçom efetivamente formado por um sistema iniciático reconhece os outros sistemas porque entende a estrutura comum a todos: o trabalho sobre si, o uso do símbolo como instrumento, a paciência da Grande Obra. O maçom que parou na iniciação virtual confunde a forma exterior com o conteúdo, e por isso precisa defender sua forma exterior — porque é tudo o que ele tem.

Esse é o motivo pelo qual o tribalismo é, em última instância, uma confissão. Quem disputa rito está dizendo, sem saber que está dizendo: eu não sei o que estou procurando, então preciso afirmar que o caminho que escolhi é o único. Há ainda outra dinâmica a considerar. Como demonstrou a psicóloga social Agnieszka Golec de Zavala em seus estudos sobre narcisismo coletivo, a identidade pessoal frágil tende a investir-se na grandiosidade percebida do grupo de pertencimento — e a reagir com indignação desproporcional a qualquer percepção de que esse grupo não é reconhecido como excepcional. O maçom que sente que sua iniciação ainda não terminou de produzir efeito interior frequentemente compensa elevando o grupo. Se o “meu” rito é o melhor, então estar nele me eleva por filiação, sem precisar caminhar.

Pluralidade não é defeito de unidade

A defesa filosófica da pluralidade de ritos não é um expediente diplomático. É reconhecimento estrutural de como tradições vivas funcionam. Mircea Eliade — historiador romeno das religiões, professor da Universidade de Chicago, e o estudioso que mais sistematicamente examinou as tradições espirituais comparadas no século XX — argumentou no Tratado de História das Religiões (1949) que a abordagem fecunda do fenômeno religioso não é reducionista, mas morfológica. Em vez de tentar definir uma “essência única” e julgar manifestações pelo grau de aproximação dessa essência, Eliade propõe expandir a noção a partir das múltiplas formas concretas em que ela aparece. Reduzir tradições a um modelo único é empobrecê-las; reconhecê-las em sua diversidade é o que permite ver a estrutura que de fato compartilham.

Antoine Faivre, professor da Sorbonne e autor da definição acadêmica padrão de esoterismo ocidental, chega a conclusão semelhante por outro caminho. Em L’ésotérisme (1992), Faivre identifica a “concordância” — a busca por pontos comuns entre tradições distintas — como característica não-intrínseca mas frequente das correntes esotéricas ocidentais. A concordância não apaga as diferenças; ela permite que elas conversem. É exatamente a dinâmica que os ritos maçônicos cultivam quando funcionam bem: cada rito mantém sua linguagem, seu ritmo, sua ênfase — e o maçom que transita entre eles, ou apenas lê sobre os outros com seriedade, percebe os pontos onde as linguagens se tocam.

Tradições uniformizadas fossilizam. É um fato observável. As religiões e ordens iniciáticas que tentaram reduzir todas as suas formas a uma única expressão canônica perderam vitalidade ao longo de gerações; as que mantiveram a pluralidade interna continuam vivas. A maçonaria brasileira, com seus seis ritos coexistindo ativamente — REAA, Brasileiro, Adonhiramita, Schröder, Moderno, Emulation/York — está entre as poucas no mundo a manter essa diversidade prática, e não estrutural. Esse é um ativo. Não é problema a ser resolvido por uniformização.

O Brasil contemporâneo: redes, tribos e o que falta

Os números do Brasil contemporâneo amplificam a relevância dessa discussão. O Grande Oriente do Brasil (GOB) e a Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil (CMSB) reúnem juntos a maior parte das mais de 211 mil filiações ativas no país. Pesquisadores como Kennyo Ismail — autor do portal No Esquadro e do livro Maçonaria Brasileira: a história ocultada (2021) — vêm documentando há mais de uma década os bastidores das tensões entre obediências, Supremos Conselhos e ritos. O diagnóstico que emerge desses trabalhos é incômodo: parte das disputas que aparecem como debate doutrinal sobre superioridade ritual são, na verdade, disputas institucionais sobre poder, prestígio e influência política, vestidas de roupagem ritualística para ganhar legitimidade.

Quando essas disputas migram para redes sociais — grupos de WhatsApp, perfis de Instagram, comentários de YouTube — elas perdem até o pouco de sofisticação que tinham nos textos polêmicos do século XVIII. O que era debate entre eruditos vira meme. “Meu rito é o original” circula sem qualquer documentação histórica. “O outro rito é raso” circula sem que o autor nunca tenha lido um único ritual desse outro rito. E, acima de tudo, a discussão que efetivamente importaria — o que cada rito faz com o iniciado, o que ele desenvolve nele, o que ele não desenvolve — fica de fora, porque exigiria conhecer os ritos por dentro. O tribalismo é mais barato do que o estudo.

Nove maçons de cada lado

Volto à Lodge of Reconciliation. Em dezembro de 1813, dezoito homens se sentaram em torno de uma mesa em Londres. Nove vinham de uma Grande Loja que se autodenominava “Antiga”. Nove vinham de uma Grande Loja que tinha sido por seis décadas chamada de “Moderna”. Eles se haviam acusado mutuamente de corrupção ritual, de impureza, de afastamento da tradição. Tinham produzido livros polêmicos, manifestos, listas de denúncias. Cada lado, sinceramente, acreditava que o outro havia se desviado.

E, ainda assim, eles se sentaram à mesma mesa. Trabalharam por dois anos e meio. Em junho de 1816, o ritual conjunto foi aprovado. A Grande Loja Unida da Inglaterra adotou estruturas dos dois lados, e nenhum dos dezoito homens, em registro algum que sobreviveu, declarou ter “perdido”. Eles tinham, todos, ganhado a única coisa que importa numa tradição iniciática: a chance de continuar trabalhando juntos.

Não havia rito superior naquela mesa. Havia maçons dispostos a sentar nela.

Talvez essa seja a melhor lembrança do que a maçonaria realmente é — não a glória de um rito sobre outro, mas a disposição de homens diferentes em construir a mesma obra. Quem disputa supremacia ritual hoje não está defendendo a tradição; está demonstrando que ainda não chegou ao ponto da tradição em que ela começa a ensinar.


Bibliografia

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DERMOTT, Laurence. Ahiman Rezon: or A Help to a Brother. Londres: James Bedford, 1756.

ELIADE, Mircea. Tratado de História das Religiões. Tradução de Fernando Tomaz e Natália Nunes. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008. (Original: Traité d’histoire des religions, Paris, 1949.)

FAIVRE, Antoine. L’ésotérisme. Paris: Presses Universitaires de France, 1992. (Coleção Que sais-je?, n. 1031.)

GOLEC DE ZAVALA, Agnieszka et al. “Collective Narcissism and Its Social Consequences”. Journal of Personality and Social Psychology, v. 97, n. 6, p. 1074-1096, 2009.

GUILLEMAIN DE SAINT-VICTOR, Louis. Recueil Précieux de la Maçonnerie Adonhiramite. Paris: Philarèthe, 1781.

ISMAIL, Kennyo. “Maçonaria Brasileira em Números”. No Esquadro, 2011. Disponível em: https://noesquadro.com.br/maconaria-brasileira-em-numeros/. Acesso em: 03 maio 2026.

ISMAIL, Kennyo. Maçonaria Brasileira: a história ocultada. Vol. I. Brasília: Edição independente, 2021.

PASQUALLY, Martinez de. Traité de la Réintégration des Êtres dans leurs Premières Propriétés, Vertus et Puissances Spirituelles et Divines. Edição estabelecida por Robert Amadou. Paris: Dumas, 1899 [manuscrito de c. 1770].

UNITED GRAND LODGE OF ENGLAND. “1723 Constitutions and the Lodge of Reconciliation”. Disponível em: https://www.ugle.org.uk/discover-freemasonry/1723-constitutions. Acesso em: 03 maio 2026.