O Cristianismo antes das Igrejas: a base espiritual do Retificado

Willermoz não fundou um rito confessional. Fundou um sistema sobre o cristianismo que as igrejas esqueceram

Na segunda metade do século XVIII, Jean-Baptiste Willermoz enfrentou um problema que nenhum outro maçom da sua geração resolveu de forma tão radical: como construir um sistema iniciático explicitamente cristão numa Europa onde a palavra “cristão” significava, antes de qualquer outra coisa, escolher um lado. Católicos e protestantes tinham se massacrado por dois séculos. As guerras de religião, a Revogação do Edito de Nantes, a Inquisição — tudo isso estava vivo na memória coletiva quando Willermoz se sentou para desenhar o que viria a ser o Regime Escocês Retificado. A solução que encontrou foi tão precisa quanto heterodoxa: recuar no tempo. Não ao cristianismo de Lutero, nem ao de Roma, nem ao de Constantinopla. Ao cristianismo que existia antes de qualquer um deles — o dos primeiros séculos, anterior aos concílios, anterior aos cismas, anterior à própria ideia de ortodoxia.

O que Willermoz herdou

O projeto não nasceu do nada. Willermoz (1730–1824), comerciante de seda em Lyon e maçom desde os vinte anos, foi discípulo direto de Martines de Pasqually, fundador da Ordem dos Élus Coëns. Martines — figura enigmática, de origem possivelmente portuguesa e criptojudaica — havia desenvolvido uma doutrina centrada na reintegração dos seres: a ideia de que a humanidade, após uma queda primordial, deveria percorrer um caminho de retorno à sua condição original junto ao Criador. O Traité sur la Réintégration des Êtres (c. 1770), obra inacabada de Martines, descreve esse caminho em termos que misturam teologia cristã, teurgia operativa e cosmologia gnóstica.

Quando Martines morreu em 1774, em São Domingos, a Ordem dos Élus Coëns já estava em declínio. Willermoz era o herdeiro mais preparado do sistema — e o mais ambicioso. Nos Conventos de Lyon (1778) e de Wilhelmsbad (1782), ele reformou a antiga Estrita Observância Templária alemã, integrando a doutrina de Martines num quadro maçônico estruturado. O resultado foi o Regime Escocês Retificado: quatro graus simbólicos, uma Ordem Interior cavaleiresca, e uma espiritualidade cristã que não se curvava a nenhuma autoridade eclesiástica.

René Le Forestier, na obra monumental La Franc-Maçonnerie Templière et Occultiste aux XVIIIe et XIXe Siècles (1970), documenta em detalhe como Willermoz navegou entre as pressões dos maçons deístas — que queriam eliminar qualquer referência religiosa — e dos maçons católicos ultramontanos — que queriam submeter a Ordem à autoridade papal. A posição de Willermoz foi recusar ambas: nem deísmo, nem confessão. Cristianismo — mas um cristianismo que precedia a divisão.

Um Cristo anterior ao dogma

O Cristo do Retificado não é o Cristo de nenhuma igreja. Nas instruções do Regime, ele aparece como Logos eterno — o princípio mediador entre o visível e o invisível, modelo do homem regenerado, caminho da reintegração. O termo Logos não é casual: remete diretamente ao Evangelho de João (“No princípio era o Logos”), mas também a uma tradição filosófico-teológica que antecede o Novo Testamento e que os Padres da Igreja dos primeiros séculos conheciam bem.

Clemente de Alexandria (c. 150–215), no Stromata, descreve o cristianismo como uma gnose verdadeira — um conhecimento transformador que conduz o homem a se tornar “imagem viva de Deus”. Para Clemente, o batismo é uma iniciação, a fé é o primeiro grau de um caminho de aprofundamento, e a filosofia grega é preparação legítima para o Evangelho, não inimiga dele. Orígenes (c. 185–253), seu sucessor em Alexandria, vai mais longe: defende a restauração universal de todas as almas — apokatastasis —, doutrina que será condenada por concílios posteriores mas que ecoa quase literalmente no conceito de reintegração de Martines de Pasqually, quinze séculos depois.

Irineu de Lyon (c. 130–202) — um Padre da Igreja que operava na mesma cidade onde Willermoz construiria o Retificado — ensinava que a salvação consiste em o homem tornar-se aquilo que Cristo é: plenamente unido ao divino. Não por decreto eclesiástico, mas por transformação interior.

Essas três vozes — Clemente, Orígenes, Irineu — representam um cristianismo que ainda não tinha sido disciplinado pelos grandes concílios (Niceia, Calcedônia, Constantinopla). Era um cristianismo plural, especulativo, aberto à investigação filosófica. E era esse cristianismo, não o das catedrais e dos catecismos confessionais, que Willermoz elegeu como fundamento espiritual do seu sistema.

Cristão sem paróquia

A consequência prática dessa escolha é o que torna o Retificado único entre os ritos maçônicos. O RER é explicitamente cristão — o candidato à Ordem Interior deve reconhecer o Cristo como modelo espiritual — mas não é confessional. Não exige pertença a nenhuma igreja. Não professa Credo denominacional. Não se submete a autoridade eclesiástica. Como o próprio Willermoz escreveu em suas instruções: “A religião cristã, em seu sentido mais puro e original, é a verdadeira religião da humanidade regenerada.”

A formulação é cirúrgica. “Mais puro e original” — não o cristianismo contemporâneo a Willermoz, mas o anterior. “Humanidade regenerada” — não a humanidade como está, mas como deveria ser após a reintegração. O cristianismo do Retificado é teleológico: aponta para um estado futuro, não para uma instituição presente.

Esse posicionamento gera tensão permanente. Maçons de tradição anglo-saxônica, acostumados ao princípio de landmark que proíbe discussão religiosa em loja, desconfiam de um rito que invoca Cristo. Católicos tradicionalistas, por sua vez, desconfiam de um sistema que trata o cristianismo como caminho iniciático e não como dogma de fé. O Retificado incomoda porque ocupa um espaço que a maioria das pessoas acredita não existir: cristão, mas não eclesiástico; iniciático, mas não secular; fiel ao Evangelho, mas infiel às instituições que reivindicam o monopólio da sua interpretação.

O espaço que Willermoz abriu

O que Willermoz construiu no final do século XVIII permanece, dois séculos e meio depois, uma das propostas mais originais da história da espiritualidade ocidental. Num momento em que a Europa se dividia entre a fé das igrejas e a razão dos filósofos, ele escolheu um terceiro caminho: voltar às fontes de uma tradição que ambos os lados acreditavam possuir — e mostrar que nenhum deles a compreendia por inteiro.

A aposta é arriscada. Um sistema que não pertence a nenhuma confissão pode ser acusado de não pertencer a nenhuma tradição. Mas o Retificado responde com os textos dos Padres na mão: a tradição à qual pertence é mais antiga que qualquer igreja existente. E é exatamente esse anterioridade — essa recusa a aceitar que o cristianismo começou nos concílios em vez de ter começado no Evangelho — que dá ao Regime Escocês Retificado a sua força e o seu desconforto.


Bibliografia

MARTINES DE PASQUALLY. Traité sur la Réintégration des Êtres. Paris: Robert Dumas, 1974. (Manuscrito original c. 1770).

LE FORESTIER, René. La Franc-Maçonnerie Templière et Occultiste aux XVIIIe et XIXe Siècles. Paris: Aubier-Montaigne, 1970.

VIVENZA, Jean-Marc. Les Élus Coëns et le Régime Écossais Rectifié. Grenoble: Le Mercure Dauphinois, 2010.

CLEMENTE DE ALEXANDRIA. Stromata. (c. 200 d.C.). In: Ante-Nicene Fathers, vol. 2. Ed. Alexander Roberts e James Donaldson. Grand Rapids: Eerdmans, 1994.

ORÍGENES. De Principiis. (c. 220 d.C.). In: Ante-Nicene Fathers, vol. 4. Ed. Alexander Roberts e James Donaldson. Grand Rapids: Eerdmans, 1994.

IRINEU DE LYON. Contra as Heresias. (c. 180 d.C.). São Paulo: Paulus, 1995.