Uma instituição fundada sobre os pilares da humildade e do aperfeiçoamento moral produz, com frequência desconcertante, homens obcecados por títulos e cadeiras. Dentro da maçonaria brasileira — que reúne mais de 211 mil membros em cerca de seis mil lojas —, existe um fenômeno que os próprios maçons reconhecem em voz baixa e, cada vez mais, em voz alta: a corrida pelo cargo de Venerável Mestre não como vocação de serviço, mas como troféu de vaidade pessoal. Em tempos de redes sociais, onde fotos de instalação circulam como conquistas profanas, essa contradição expõe uma crise de identidade que ameaça o próprio sentido da Ordem.
A cadeira e o símbolo que ela deveria ser
O cargo de Venerável Mestre carrega peso simbólico considerável. Deriva do inglês worshipful — aquele que é digno de reverência —, e a tradição o associa à figura do Rei Salomão, construtor do Templo que dá forma ao mito fundador da maçonaria especulativa. O Venerável não é um soberano; é, em tese, um servidor que guia a loja pelo exemplo. Sua joia, o esquadro, representa retidão de conduta. Sua cadeira, o chamado Trono de Salomão, não é insígnia de poder: é estação de trabalho.
Para ocupá-la, os regulamentos exigem requisitos formais: ser Mestre Maçom há pelo menos três anos, ter servido como Vigilante, manter frequência mínima de cinquenta por cento nas sessões e estar em dia com obrigações financeiras. Esses critérios, no entanto, são condição necessária mas insuficiente. A tradição maçônica sempre distinguiu entre poder ocupar e dever ocupar — distinção que, na prática, se dissolve com frequência alarmante.
Quando o avental vira fantasia
O problema não é novo, mas ganhou contornos específicos no Brasil do século XXI. O crescimento acelerado da maçonaria brasileira — o Grande Oriente do Brasil incorporou quase quinhentas lojas e catorze mil membros só entre 2003 e 2009 — trouxe consequências previsíveis. Lojas multiplicaram-se em cidades pequenas, onde a filiação maçônica opera como distintivo social. Gerald Koppe Jr., vice-grão-chanceler de relações exteriores do GOB, chegou a declarar que a idade média dos novos iniciados caiu para 28 anos, com muitos universitários ingressando aos vinte e poucos. Rejuvenescimento é saudável; pressa para galgar cargos, nem sempre.
O fenômeno se manifesta em padrões reconhecíveis. Há o iniciado que, mal exaltado ao grau de Mestre, abandona o estudo por considerar que alcançou a plenitude maçônica. Há o que articula candidaturas ao Veneralato com base em relacionamentos e conveniências, não em competência. E há, talvez o mais corrosivo, o que importa para dentro da loja os vícios do mundo profano — a altivez do cargo empresarial, o reflexo do título acadêmico, a arrogância do patrimônio acumulado — esperando que a cadeira do Venerável lhe confira um verniz de nobreza que suas credenciais mundanas não sustentam sozinhas.
Escritores maçônicos não poupam adjetivos ao descrever o tipo. Textos internos, publicados em portais como o Freemason.pt e em bibliotecas virtuais da Ordem, falam em “profanos de avental” — expressão que sintetiza, com precisão cirúrgica, o maçom que veste os paramentos sem ter internalizado nenhum de seus significados. Em uma tradição onde a pedra bruta é metáfora central para o trabalho interior que cada membro deve empreender sobre si mesmo, o carreirista de loja é o sujeito que poliu apenas a superfície.
A armadilha deliberada
Há, contudo, uma perspectiva menos óbvia sobre essa dinâmica: a própria Ordem foi desenhada para provocá-la. A maçonaria distribui títulos, graus, jóias, paramentos e cargos com generosidade calculada. Do Aprendiz ao Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito, passando por dezenas de cargos dentro de cada loja — Vigilantes, Diáconos, Orador, Secretário, Tesoureiro, Hospitaleiro, Mestre de Cerimônias, Guarda do Templo —, a estrutura hierárquica multiplica oportunidades para que a vaidade se revele.
Textos doutrinários argumentam que essa profusão não é acidente, mas pedagogia. A Ordem testaria deliberadamente a vaidade de seus membros, oferecendo-lhes títulos e insígnias como iscas morais. O maçom maduro resistiria à tentação e preservaria a memória da simplicidade de seu primeiro avental — branco, sem ornamentos, recebido na noite da iniciação. O maçom imaturo morderia a isca e se exporia, revelando as arestas que ainda precisa desbastar.
Se a interpretação é generosa, o diagnóstico que ela exige é severo. Uma pedagogia que depende da falha de seus alunos para funcionar precisa, no mínimo, de mecanismos de correção. E é justamente aí que a maçonaria contemporânea mostra suas fraturas. Quando lojas elegem candidatos despreparados por omissão, conivência ou, nas palavras de um autor maçônico, “pura covardia”, o sistema de seleção falha. O teste de vaidade deixa de ser filtro e vira passarela.
O espetáculo digital
As redes sociais amplificaram o problema de maneira que os fundadores da Grande Loja de Londres, em 1717, não poderiam imaginar. Fotos de sessões de instalação, maçons em trajes rituais completos, cadeiras de Venerável exibidas como troféus — tudo circula em grupos de WhatsApp, perfis de Instagram e páginas de Facebook. A discrição, que durante séculos foi marca identitária da Ordem, colide com a cultura da autoexposição.
No Brasil, essa colisão é particularmente ruidosa. Diferentemente de jurisdições anglo-saxônicas, onde a discrição permanece norma social, a maçonaria brasileira sempre teve relação mais aberta com a visibilidade pública. Membros exibem a filiação com orgulho; o próprio Hamilton Mourão, então vice-presidente, apareceu em rede nacional de TV em trajes maçônicos. Esse orgulho público não é em si problemático. Torna-se, porém, quando a exposição substitui a substância — quando a foto na cadeira do Venerável importa mais que o exercício do cargo.
A tensão gerou debates internos acalorados. Maçons tradicionalistas consideram que a postagem de imagens de lojas montadas e cerimônias abertas vulgariza a Ordem e destrói o impacto emocional que os rituais pretendem produzir nos candidatos. Outros argumentam que a presença digital é ferramenta legítima de comunicação e crescimento. A verdade desconfortável é que ambos têm razão — e que o problema não está na tecnologia, mas no que ela revela sobre as motivações de quem a utiliza.
Venerável ou venerado?
Existe uma distinção sutil mas decisiva que autores maçônicos insistem em traçar: a diferença entre ser Venerável e querer ser venerado. O primeiro aceita o encargo como serviço; o segundo busca o cargo como palco. O primeiro entende que o título expira com o mandato; o segundo o carrega como medalha perpétua. O primeiro usa o esquadro para medir suas próprias ações; o segundo o usa para medir a reverência alheia.
O problema não é exclusivo da maçonaria. Toda instituição hierárquica — igrejas, forças armadas, corporações, academias — produz carreiristas que confundem posição com mérito. O que torna o caso maçônico singular é a contradição entre o discurso e a prática: nenhuma dessas outras instituições dedica tanta energia retórica à denúncia da vaidade quanto a maçonaria. Desde o Eclesiastes — “Vaidade de vaidades! Tudo é vaidade” —, passagem que integra o corpus simbólico da Ordem, até as exortações ritualísticas sobre humildade e igualdade, a tradição maçônica arma o discurso contra o próprio vício que reproduz. A distância entre o que se prega no templo e o que se pratica fora dele é, para muitos maçons críticos, a ferida aberta da fraternidade.
A psicologia da cadeira: narcisismo, status e supply
O que a maçonaria chama de vaidade, a psicologia contemporânea descreve com precisão clínica. Em 2020, Stathis Grapsas, Eddie Brummelman, Mitja Back e Jaap Denissen publicaram na revista Perspectives on Psychological Science um modelo processual do narcisismo centrado na busca de status. A tese é direta: o narcisismo pode ter evoluído como mecanismo psicológico que facilita a navegação de hierarquias sociais. Indivíduos com traços narcisistas grandiosos não apenas desejam status — organizam toda a sua vida relacional em torno da obtenção e manutenção dele.
O modelo distingue duas estratégias. A primeira, chamada de admiração narcisista, opera por autopromoção: o sujeito se apresenta como superior, busca atenção e validação, e alimenta fantasias grandiosas sobre sua posição no grupo. A segunda, a rivalidade narcisista, entra em cena quando a autopromoção falha ou é bloqueada: o indivíduo passa a depreciar rivais, minar concorrentes e reagir com agressividade a qualquer ameaça ao seu status percebido. Transposto para o contexto de uma loja maçônica, o modelo explica tanto o maçom que articula candidaturas com base em charme e networking quanto aquele que, uma vez derrotado em eleição, fragmenta a loja por ressentimento.
Há um conceito ainda mais pertinente: o de narcissistic supply, formulado pelo psicanalista Heinz Kohut. Kohut observou que seus pacientes narcisistas sofriam de um vazio estrutural — alienação profunda, sensação de insignificância, ausência de coesão interna. Para compensar essa fragilidade, buscavam incessantemente validação externa: admiração, respeito, atenção. Sem esse suprimento, desintegravam-se emocionalmente. A cadeira do Venerável, com seu ritual de instalação solene, seu séquito de saudações formais e sua visibilidade perante toda a loja, funciona como fonte concentrada desse suprimento. Para o maçom psicologicamente saudável, o cargo é encargo. Para o narcisista, é dose.
Em 2012, Jochen Gebauer e Constantine Sedikides introduziram o conceito de narcisismo comunal — o indivíduo que busca grandiosidade e poder não pela via agentic tradicional (dominação, competição), mas pela via comunal: apresentando-se como excepcionalmente generoso, altruísta e dedicado ao grupo. O narcisista comunal é aquele que ajuda ostensivamente, doa publicamente, serve visivelmente — não porque o serviço é fim em si mesmo, mas porque o serviço é palco. A maçonaria, com sua retórica de filantropia, fraternidade e aperfeiçoamento coletivo, oferece terreno fértil para esse perfil. O irmão que organiza ações beneficentes para fotografá-las, que preside comissões para constar em atas, que lidera projetos para acumular currículo institucional — esse é o narcisista comunal vestindo avental.
A psicóloga social Agnieszka Golec de Zavala acrescenta outra dimensão: o narcisismo coletivo, no qual o indivíduo investe sua autoestima frágil na imagem do grupo a que pertence. O grupo precisa ser reconhecido como excepcional, e qualquer percepção de que a sociedade não lhe confere o devido valor é vivida como afronta pessoal. Quando um maçom reage com indignação desproporcional a críticas externas à Ordem, ou quando exige “respeito” pela instituição em contextos onde ninguém o desrespeitou, está operando sob a lógica do narcisismo coletivo: sua identidade pessoal depende da grandiosidade percebida do grupo.
Nenhum desses conceitos implica diagnóstico clínico. A maioria dos maçons que buscam cargos com motivações mistas — parte genuíno desejo de servir, parte satisfação do ego — não é narcisista no sentido patológico. O ponto relevante é estrutural: a arquitetura institucional da maçonaria, com sua profusão de títulos, graus e cerimoniais, maximiza a superfície de contato entre a organização e as vulnerabilidades narcísicas de seus membros. A instituição não cria narcisistas, mas oferece a eles um ambiente otimizado para operar.
O que a cadeira vazia ensina
Há um ritual não oficial, praticado em algumas lojas desde 1875 — uma década após a Guerra Civil Americana —, que oferece um contraponto eloquente à obsessão pela cadeira ocupada: a cerimônia da cadeira vazia. Nela, uma cadeira coberta com cortinas pretas é trazida ao templo em procissão solene, acompanhada de um avental branco de cordeiro. O ritual homenageia os irmãos ausentes — os que morreram, os que se afastaram, os que o tempo levou. A cadeira vazia lembra que nenhum cargo é permanente, nenhum título sobrevive ao silêncio final.
A lição, se levada a sério, é desestabilizadora. Numa cultura organizacional que distribui condecorações com a mesma generosidade com que cobra mensalidades, a cadeira vazia é um memento mori institucional. Ela diz: o que importa não é quem sentou nela, mas o que fez enquanto esteve sentado. E, sobretudo, se fez falta quando a deixou.
A maçonaria brasileira, com seus mais de duzentos mil membros e seu crescimento puxado por jovens atraídos por conteúdos digitais, enfrenta uma escolha que não pode adiar indefinidamente. Ou recupera a seriedade do processo de formação — que exige estudo, observação e humildade genuína, não apenas interstícios regulamentares e frequência mínima —, ou aceita que a cadeira do Venerável se torne o que seus críticos internos já denunciam: um trono de Salomão ocupado por homens que não aprenderam a construir sequer a si mesmos.
Bibliografia
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CONFEDERAÇÃO DA MAÇONARIA SIMBÓLICA DO BRASIL (CMSB). Sobre. Disponível em: cmsb.org.br.
