Em qualquer cidade média do Brasil, em qualquer mês do ano, fotos de instalação circulam em grupos de WhatsApp e perfis de Instagram como conquistas profanas: o novo Venerável Mestre posando ao lado da cadeira, o avental ornamentado, a comitiva. A legenda fala em “honra” e “responsabilidade”. Para muitos dos que postam, porém, a cadeira não é encargo de serviço — é troféu pessoal. E é aqui que a maçonaria revela uma de suas contradições mais persistentes: instituição fundada sobre humildade e aperfeiçoamento moral, ela produz com frequência desconcertante homens obcecados por títulos. Dentro da maçonaria brasileira — que reúne mais de 211 mil membros em cerca de seis mil lojas —, esse fenômeno expõe uma crise de identidade que ameaça o próprio sentido da Ordem.
A cadeira e o símbolo que ela deveria ser
No fundo de qualquer templo maçônico, atrás da mesa do leste, fica uma cadeira que a tradição chama de Trono de Salomão. Quem entra pela primeira vez tende a vê-la como insígnia de poder — não é. O cargo de Venerável Mestre deriva do inglês worshipful — aquele que é digno de reverência —, e a tradição o associa à figura do Rei Salomão, construtor do Templo que dá forma ao mito fundador da maçonaria especulativa. O Venerável não é um soberano; é, em tese, um servidor que guia a loja pelo exemplo. Sua joia, o esquadro, representa retidão de conduta. Sua cadeira, o chamado Trono de Salomão, não é insígnia de poder: é estação de trabalho.
Para ocupá-la, os regulamentos exigem requisitos formais: ser Mestre Maçom há pelo menos três anos, ter servido como Vigilante, manter frequência mínima de cinquenta por cento nas sessões e estar em dia com obrigações financeiras. Esses critérios, no entanto, são condição necessária mas insuficiente. A tradição maçônica sempre distinguiu entre poder ocupar e dever ocupar — distinção que, na prática, se dissolve com frequência alarmante.
Quando o avental vira fantasia
O fenômeno se manifesta em padrões reconhecíveis. Há o iniciado que, mal exaltado ao grau de Mestre, abandona o estudo por considerar que alcançou a plenitude maçônica. Há o que articula candidaturas ao Veneralato com base em relacionamentos e conveniências, não em competência. E há, talvez o mais corrosivo, o que importa para dentro da loja os vícios do mundo profano — a altivez do cargo empresarial, o reflexo do título acadêmico, a arrogância do patrimônio acumulado — esperando que a cadeira do Venerável lhe confira um verniz de nobreza que suas credenciais mundanas não sustentam sozinhas.
O problema não é novo, mas ganhou contornos específicos no Brasil do século XXI. O crescimento acelerado da maçonaria brasileira — o Grande Oriente do Brasil incorporou quase quinhentas lojas e catorze mil membros só entre 2003 e 2009 — trouxe consequências previsíveis. Lojas multiplicaram-se em cidades pequenas, onde a filiação maçônica opera como distintivo social. Gerald Koppe Jr., vice-grão-chanceler de relações exteriores do GOB, chegou a declarar que a idade média dos novos iniciados caiu para 28 anos, com muitos universitários ingressando aos vinte e poucos. Rejuvenescimento é saudável; pressa para galgar cargos, nem sempre.
Escritores maçônicos não poupam adjetivos ao descrever o tipo. Textos internos, publicados em portais como o Freemason.pt e em bibliotecas virtuais da Ordem, falam em “profanos de avental” — expressão que sintetiza, com precisão cirúrgica, o maçom que veste os paramentos sem ter internalizado nenhum de seus significados. Em uma tradição onde a pedra bruta é metáfora central para o trabalho interior que cada membro deve empreender sobre si mesmo, o carreirista de loja é o sujeito que poliu apenas a superfície.
A armadilha deliberada
Aprendiz, Companheiro, Mestre. Vigilantes, Diáconos, Orador, Secretário, Tesoureiro, Hospitaleiro, Mestre de Cerimônias, Guarda do Templo. Trinta e três graus do Rito Escocês Antigo e Aceito, joias específicas para cada cargo, paramentos que distinguem títulos. A maçonaria distribui hierarquias e insígnias com generosidade calculada — e há uma perspectiva menos óbvia sobre por quê: a própria Ordem foi desenhada para provocar a vaidade que denuncia. A estrutura hierárquica multiplica oportunidades para que ela se revele.
Textos doutrinários argumentam que essa profusão não é acidente, mas pedagogia. A Ordem testaria deliberadamente a vaidade de seus membros, oferecendo-lhes títulos e insígnias como iscas morais. O maçom maduro resistiria à tentação e preservaria a memória da simplicidade de seu primeiro avental — branco, sem ornamentos, recebido na noite da iniciação. O maçom imaturo morderia a isca e se exporia, revelando as arestas que ainda precisa desbastar.
Se a interpretação é generosa, o diagnóstico que ela exige é severo. Uma pedagogia que depende da falha de seus alunos para funcionar precisa, no mínimo, de mecanismos de correção. E é justamente aí que a maçonaria contemporânea mostra suas fraturas. Quando lojas elegem candidatos despreparados por omissão, conivência ou, nas palavras de um autor maçônico, “pura covardia”, o sistema de seleção falha. O teste de vaidade deixa de ser filtro e vira passarela.
O espetáculo digital
As redes sociais amplificaram o problema de maneira que os fundadores da Grande Loja de Londres, em 1717, não poderiam imaginar. Fotos de sessões de instalação, maçons em trajes rituais completos, cadeiras de Venerável exibidas como troféus — tudo circula em grupos de WhatsApp, perfis de Instagram e páginas de Facebook. A discrição, que durante séculos foi marca identitária da Ordem, colide com a cultura da autoexposição.
No Brasil, essa colisão é particularmente ruidosa. Diferentemente de jurisdições anglo-saxônicas, onde a discrição permanece norma social, a maçonaria brasileira sempre teve relação mais aberta com a visibilidade pública. Membros exibem a filiação com orgulho; o próprio Hamilton Mourão, então vice-presidente, apareceu em rede nacional de TV em trajes maçônicos. Esse orgulho público não é em si problemático. Torna-se, porém, quando a exposição substitui a substância — quando a foto na cadeira do Venerável importa mais que o exercício do cargo.
A tensão gerou debates internos acalorados. Maçons tradicionalistas consideram que a postagem de imagens de lojas montadas e cerimônias abertas vulgariza a Ordem e destrói o impacto emocional que os rituais pretendem produzir nos candidatos. Outros argumentam que a presença digital é ferramenta legítima de comunicação e crescimento. A verdade desconfortável é que ambos têm razão — e que o problema não está na tecnologia, mas no que ela revela sobre as motivações de quem a utiliza.
Venerável ou venerado?
Em alguns currículos maçônicos, a linha “ex-Venerável Mestre da Loja X” aparece acompanhada da gestão exata, três décadas depois — como diploma. Em outros, ela simplesmente não aparece: o cargo foi cumprido, a missão entregue, e o irmão segue sendo aprendiz da arte. A diferença entre os dois capta uma distinção sutil mas decisiva que autores maçônicos insistem em traçar: a diferença entre ser Venerável e querer ser venerado. O primeiro aceita o encargo como serviço; o segundo busca o cargo como palco. O primeiro entende que o título expira com o mandato; o segundo o carrega como medalha perpétua. O primeiro usa o esquadro para medir suas próprias ações; o segundo o usa para medir a reverência alheia.
O problema não é exclusivo da maçonaria. Toda instituição hierárquica — igrejas, forças armadas, corporações, academias — produz carreiristas que confundem posição com mérito. O que torna o caso maçônico singular é a contradição entre o discurso e a prática: nenhuma dessas outras instituições dedica tanta energia retórica à denúncia da vaidade quanto a maçonaria. Desde o Eclesiastes — “Vaidade de vaidades! Tudo é vaidade” —, passagem que integra o corpus simbólico da Ordem, até as exortações ritualísticas sobre humildade e igualdade, a tradição maçônica arma o discurso contra o próprio vício que reproduz. A distância entre o que se prega no templo e o que se pratica fora dele é, para muitos maçons críticos, a ferida aberta da fraternidade.
A psicologia da cadeira: narcisismo, status e supply
O que a maçonaria chama de vaidade, a psicologia contemporânea descreve com precisão clínica. O psicanalista Heinz Kohut observou que pacientes narcisistas sofriam de um vazio estrutural — alienação profunda, sensação de insignificância, ausência de coesão interna — que precisavam compensar com validação externa constante. Sem esse suprimento de admiração, respeito e atenção (o conceito ficou conhecido como narcissistic supply), desintegravam-se emocionalmente. A cadeira do Venerável, com seu ritual de instalação solene, seu séquito de saudações formais e sua visibilidade perante toda a loja, é fonte concentrada desse suprimento. Para o maçom psicologicamente saudável, o cargo é encargo. Para o narcisista, é dose.
Em 2012, Jochen Gebauer e Constantine Sedikides nomearam um perfil ainda mais ajustado ao contexto maçônico: o narcisista comunal. Não é o que busca grandiosidade pela dominação direta, mas o que se apresenta como excepcionalmente generoso, altruísta e dedicado ao grupo — porque o serviço, para ele, é palco. O irmão que organiza ações beneficentes para fotografá-las, que preside comissões para constar em atas, que lidera projetos para acumular currículo institucional — esse é o tipo. A maçonaria, com sua retórica de filantropia e fraternidade, oferece terreno fértil para esse perfil específico.
Nenhum desses conceitos implica diagnóstico clínico. A maioria dos maçons que buscam cargos com motivações mistas — parte genuíno desejo de servir, parte satisfação do ego — não é narcisista no sentido patológico. O ponto é estrutural: a arquitetura institucional da maçonaria, com sua profusão de títulos, graus e cerimoniais, maximiza a superfície de contato entre a organização e as vulnerabilidades narcísicas de seus membros. A instituição não cria narcisistas, mas oferece a eles um ambiente otimizado para operar.
O que a cadeira vazia ensina
Há um ritual não oficial, praticado em algumas lojas desde 1875 — uma década após a Guerra Civil Americana —, que oferece um contraponto eloquente à obsessão pela cadeira ocupada: a cerimônia da cadeira vazia. Nela, uma cadeira coberta com cortinas pretas é trazida ao templo em procissão solene, acompanhada de um avental branco de cordeiro. O ritual homenageia os irmãos ausentes — os que morreram, os que se afastaram, os que o tempo levou. A cadeira vazia lembra que nenhum cargo é permanente, nenhum título sobrevive ao silêncio final.
A lição, se levada a sério, é desestabilizadora. Numa cultura organizacional que distribui condecorações com a mesma generosidade com que cobra mensalidades, a cadeira vazia é um memento mori institucional. Ela diz: o que importa não é quem sentou nela, mas o que fez enquanto esteve sentado. E, sobretudo, se fez falta quando a deixou.
A maçonaria brasileira, com seus mais de duzentos mil membros e seu crescimento puxado por jovens atraídos por conteúdos digitais, enfrenta uma escolha que não pode adiar indefinidamente. Ou recupera a seriedade do processo de formação — que exige estudo, observação e humildade genuína, não apenas interstícios regulamentares e frequência mínima —, ou aceita que a cadeira do Venerável se torne o que seus críticos internos já denunciam: um trono de Salomão ocupado por homens que não aprenderam a construir sequer a si mesmos.
Bibliografia
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ISMAIL, Kennyo. “Maçonaria Brasileira em Números”. No Esquadro, 2011. Disponível em: noesquadro.com.br.
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COLUSSI, Eliane Lucia. A Maçonaria gaúcha no século XIX. 3ª ed. Editora da UPF, 2003.
KOSELLECK, Reinhart. Crítica e Crise: uma contribuição à patogênese do mundo burguês. Eduerj/Contraponto, 1999. (Trad. do original alemão de 1959).
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GEBAUER, Jochen E.; SEDIKIDES, Constantine; VERPLANKEN, Bas; MAIO, Gregory R. “Communal Narcissism”. Journal of Personality and Social Psychology, v. 103, n. 5, p. 854-878, 2012.
CONFEDERAÇÃO DA MAÇONARIA SIMBÓLICA DO BRASIL (CMSB). Sobre. Disponível em: cmsb.org.br.
